segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Urb. 26b, 27a A Desculpa do Escultor






Asas de mármore ou de gesso
Imaginas que nunca voem
O ar casto e negro da noite
Talvez seja esse o preço
Na oficina de um escultor
Cabeças de argila cantam
Poetas alados amam...
Borboletas cheiram à flor.


Uma Nova Vênus de Willendorf

Quero fazer-te minha “pequena-grande- musa”
Eloquentemente viajo em traços que busco pela minuciosa existência de teu colibri
E busco... E busco teu existir
E vejo tão somente, simplesmente tua poeira
E penso que foi, mas estás dentro do meu coração
Singelo, não quero ser imortal
Não sou um deus
Nem você uma musa qualquer

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

As Mirtáceas Naquela Alameda

          Já não conseguia entender todos os teus sinais.
       Retardo...

      As paralelas decrescentes daquelas alamedas mostram-me tão torpe, mesmo, (“- Eu nu queria soprar, talvez rir o verniz no sorriso daquela corretora de pequenos imóveis, imóvel, cada álamo - uma salicácea oval perdida de mim”) quase não notara a igreja de um novo evangelho. E um cão passa ladrando...
      Os fios de luz emaranham-se com os da rede telefônica torcida, tensionada, como as vozes perdidas no barulho da fábrica de tecido.
      Trânsito congestionado.
      Me divido; sua rua não traz sorte a mais ninguém.
      Quem vagueia se perde em meio aos corpos infelizes e solitários que por ali consomem-se.
      No fino trapo a dor nos olhos que o padeiro carrega, amiúde, cada sonho seu, qual a costura que se misturam cozimentos e sonhos de que sua esposa engravide: esperança.
      Ao lado do prédio público (uma Prefeitura de funcionários entretidos com os números da sociedade) a funerária “Salve: Sua melhor despedida” empilha seus féretros atrapalhando na calçada a fila de apostadores que depositam toda sua sorte na urna da casa lotérica que se segue a dez metros dali. Garotos despedem-se da infância reparando algumas bicicletas por menos de um níquel. Esses são os novos pedintes de gerações que continuam a adaptar-se para obter êxito.
      A garoa que cai silenciosamente a tarde não afasta quem toma as doses de soluções pouco prováveis daquele conhecido boteco: uma tragada, nada mais...! Alguém se aproxima: “- Pô, mano, descola umas moedas só pra ‘intera’ de uma parada?” Mais um viciado conhecido.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Lendo Leila

Ela é  tão vertical como a árvore naquele bosque
Deslizando os dedos sobre linhas feitas de nylon
Seu  diário virtual são matizes de Lorde Byron
Flores albas desafiando Hegel em suaves toques

Da varanda vê- se um prédio, que embora triste
Viraria gentes a recortar o céu que é sua alma
Em versos, lados da  rua, como a mão, a palma
A mesma que tomara o violão e tocara o uísque

O olhar nunca se perde, sempre fita curioso algo
Paisagens, alimento interior ou fímbrias do belo
Na camada afetiva da mente as pedras criam elo
São a mesma sépia nos olhos que as tornaram alvo

A pele nua que veste cada parte vital do seu corpo
Contrasta o veste escuro com aquela forma clara
Transborda o desejo intenso de uma escritora rara
Como uma chuva em véus desnudando os morros

Quando escrever para os outros em poesia e prosa
Torna-se o fardo árduo de quem precisa ser ativa
Se ouve a dor do mundo ecoar do peito da artista
Cujos lábios ensaiam as mais sedutoras respostas
...

Leila morrerá de amor, de amor por ser honrosa.  

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

À Sombra da Verdade

Um pós-escrito a procura de sentimentos
Assim é o sonho na doce melancolia da íris castanha
Que inspiração satisfaz o poeta ou a poetisa diante da ausência?
O objeto é sempre tão abstrato quanto as letras que o tecem
As formas e as palavras no mundo
...céu de um dia concreto.