quinta-feira, 14 de junho de 2012

How many get the way I feel now


I always faked my smile
There's so many careless angels responsible for me
They give me disease
They give me a pain in my neck to feed off me
John Frusciante, "Anne" in Curtains album, 2004.




o meu (coração) transborda
de dor
e em recolhimento
fixa-se na desolação
...
meu triste acalanto.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Do Interesse Anônimo






Insana Manhã

cansar e entardecer
eis que de manhã
a manha ganha força...


Traum

devir anímico para além do ser...

Tragédia Aviculturista

da visita breve de um Suí
estupefato

penugens de um Sassariqueiro
calo na garganta

que Andorinha lampeja à tarde?
leva erva daninha

sulamérica daqui
trópico tropical

mal a secar Beliscões
no Urubú do Ver-o-pêso

de eurrítmica plurística
o Bem-te-ví já bem esposto

no cabo de alta-tensão

tragédia aviculturista.


Dante Exausto

"... cansado do peso
da (minha) cabeça"
do jogo linguístico
e, mesmo elas:
as palavras,

versam, tramam
como algozes
o nosso desfecho


Celibatários

a mesma dama de vermelho
da espera impaciente
onde cada olhar independente
remonta o mesmo enredo

e desperta nas nove gentes
o desejo, o olor e o medo
no atraso frente ao espelho
se guardo sentimentos perenes


Outdoors

um poema nascido da dor
ou da angústia pálida
palavras-nuvens-áridas
assolam a alma do autor

peso hermético da coisa
do objeto-ser no mundo
presença sem ter assunto
verso duro de uma glosa

morre a flor, o ser só
seu nome e o nome da moça
evaporam de um outdoor


Como Michelangelo Pecou Naquele Teto

já Rembrandt tentara extrair luzes das sombras e
como erro de um Deus findou em ceder sombras à luz


Uma Vez

Me fiz sr. para me expor em extrema latêncía
(perceba a redundància), própria de uma pessoa - qual o deleite e o prazer - a praiar manias.
"Minha areia sem teus pés nus
quase no te quis só para mim
fiz da paisagem essa Bruma

já que não estás ao meu lado
e estando o mesmo, enfim"


Nada

revelada ou velada, a palavra em suma apresentação
no devir da coisa, a verdade não alcançada
onde 2 não é nada
longe a proposição de um signo
da forma expressa, escrita ou impressa
dizer apenas como a coisa é


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Stockhausen Riria



Margaridas e samambaias douram-se a luz desse triste maio
Aspiro ao pairar de um calor que já alude aos campos verdes
Tão leve que a própria pena de um pintor chinês se esvai ali
As casas, pagodes, esperas sem fim de amarrotar as solidões
No desdém dos ventos marcando os quatro cantos da janela
Em n-dimensionais das coisas indubitáveis a arrolar dúvidas
Sobre o fim, no ir e vir fortuito, das sombras a verbos em pó
Pobres e virgens os vasos dilatam feridos com febre o húmus
Versam o nome da boca por sobre o inalar de rosas alheias
O jogo se encaminha como se em abstração se compusesse
E mais de um jogador vem a enredar-se de repente assim
Vítimas que se apresentam, se opõem e se desmaterializam
Finda a forma ríspida, rígida e morna de um poema atonal


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Poema em Negro*



Não é minha voz que enrouquece,
Não são meus pensamentos que se turvam,
Tampouco minhas mãos gesticulando confusas.
Não, terminantemente não está em mim a lucidez que teus olhos querem ver.
Fiz-me belo e alinhado como Wilde,
Límpido e transparente como Lorca
E mesmo assim a rima deixou teus lábios sem nada beijar.
Cortina negra,
Parte que decora a casa, meu ambiente,
Estronda em ti o medo do que não é reflexo.
Não mereces assim o meu grito nos espaços que teces para a história.
Sou o poeta do canto não esperado,
Com o fundo lírico cortante e trágico,
Não esperarei ser trasladado contigo para o país dos homens felizes!


*In: Eus ou os tênis usados de Virgínia Olff, poesia, no prelo

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O Crivo e a Migalha ou Freud Interpreta (Erroneamente) os "Sapatos" de Van Gogh



Como os sapatos novos que fazem uma viagem longa a uma cidade vizinha
As tristes meias velhas e gastas do andarilho calejado
A esconder a dor ou a melancolia em acordes dos quadriculados
Fase azul de um Picasso nos retalhos daquela mulher mendiga
Luminárias e luminosos são seu Sol nas cobertas ao entardecer
Não aquecem nem trazem esperança para quem só ganha por esmola...
Poucas ou muitas as palavras subordinadas a menor recompensa.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Seleta




Homo pictóricus


a vanguarda adormecida que Dalí anuncia
parusia da doutrina escatológica
quiçá as cores de um calafate
aparecessem em Magritte
vicejantes e embriagados
"la máquina de gorjear", vamos a Klee!
o objeto é categórico, homens bucólicos
admiram a estrela
para Miró
para onde à negra?
no alaúde de madeira
on line figura prisioneira
hóspede ou manequim
De Chirico vivo vivo
muito vivo
Belchior bebendo o antigo
de Caetano a Gauguim
rejuvenece assim
assusta a mão que o toca
de fora, a nota descendo escalas
viagem de um jovem Duchamp
ao centro de Laforgue


(encore à cet astre)


Duchamp sabe que delira
nas Impressions d' Afrique...!



na contracapa
teatro
a imagem
imaginas tudo
eu
tu
nós
cada personagem
visgo da folha
o papel é teu
soletrei o tempo
ficastes à léguas de mim
fui até a outra margem
vi que a coxia escondia muito mais
parte da semente era da trapezista
noutra margem: o palhaço!

vês ator, só o que te resta?
nossas praças...


o poeta canta as duas
banhadas de sal e areia
como ânforas e ébrios


Cheiro precoce


bilboquê
de
rosa-botão
na sombra
com
àgua
e
sabão



Íris, bastonetes, pupilas e outras olhadas


A análise clínica, dura, quase intransponível, eurrítmico tácito consentido da greta vocabular científica, não deixa de propalar as cinestesias que a poetisa empresta ao tomo perceptivo da visão.



O que escreves, crônica tácita, quase fábula de um artista soturno.
Num corpo em tessitura com as amarras do existir: num limite os sentidos, sentires; noutra extremidade, repertório de experiências...


Mesmo o poeta "ser per si” que se evade da mais arguta frase ao se estender ou imbricar-se...querer é estranho; a vontade domestica o homem, algo em si de dúvida, razão e altivez. Pronto! Estamos envoltos na névoa quente do passado do que somos.



segunda-feira, 26 de março de 2012

O Diorama de Bluma




Não sei se tela ou filigrana
O seu olhar é lâmina dissecante
Que penetra na carne
Na alma a qualquer instante
Daguerreótipo de único lance, o momento definitivo!
Qualquer pequeno grão de estrela que caía cintilava a madrugada fria
(Um sobrecéu a abrir-se diante de sua janela!)
Colige todo o sentimento ensimesmado
E eu ator desarmado
Sucumbi a seus olhos insistentes; olhos de platéia, centrada em linha!

Ser serenado ou incômodo
Sem se ater a quem mais queira
Vi do outro lado da lente feminina minha face prisioneira
Meu coração acelerado
Dissidente apavorado
De parvo teor acólito
O objeto afeto de sua mira
Incólume projétil desguarnecido e imóvel
Tão desajeitado aos raios da retina

O que chamou sua atenção nessa triste aparência?
Se o que guardo nos bolsos desfiados
São gastos há tempos ruminados
Nos quase trinta anos que esta vida me empresta
Essa existência a espalhar fragmentos de réstia
Viraria partículas no flash alinhado
Em sua prosa fotográfica que documenta o instante inato
Tornando icônica a sombra que reanima
A mesma forma que agora é sua e não mais minha...!