segunda-feira, 7 de maio de 2012

Poema em Negro*



Não é minha voz que enrouquece,
Não são meus pensamentos que se turvam,
Tampouco minhas mãos gesticulando confusas.
Não, terminantemente não está em mim a lucidez que teus olhos querem ver.
Fiz-me belo e alinhado como Wilde,
Límpido e transparente como Lorca
E mesmo assim a rima deixou teus lábios sem nada beijar.
Cortina negra,
Parte que decora a casa, meu ambiente,
Estronda em ti o medo do que não é reflexo.
Não mereces assim o meu grito nos espaços que teces para a história.
Sou o poeta do canto não esperado,
Com o fundo lírico cortante e trágico,
Não esperarei ser trasladado contigo para o país dos homens felizes!


*In: Eus ou os tênis usados de Virgínia Olff, poesia, no prelo

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O Crivo e a Migalha ou Freud Interpreta (Erroneamente) os "Sapatos" de Van Gogh



Como os sapatos novos que fazem uma viagem longa a uma cidade vizinha
As tristes meias velhas e gastas do andarilho calejado
A esconder a dor ou a melancolia em acordes dos quadriculados
Fase azul de um Picasso nos retalhos daquela mulher mendiga
Luminárias e luminosos são seu Sol nas cobertas ao entardecer
Não aquecem nem trazem esperança para quem só ganha por esmola...
Poucas ou muitas as palavras subordinadas a menor recompensa.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Seleta




Homo pictóricus


a vanguarda adormecida que Dalí anuncia
parusia da doutrina escatológica
quiçá as cores de um calafate
aparecessem em Magritte
vicejantes e embriagados
"la máquina de gorjear", vamos a Klee!
o objeto é categórico, homens bucólicos
admiram a estrela
para Miró
para onde à negra?
no alaúde de madeira
on line figura prisioneira
hóspede ou manequim
De Chirico vivo vivo
muito vivo
Belchior bebendo o antigo
de Caetano a Gauguim
rejuvenece assim
assusta a mão que o toca
de fora, a nota descendo escalas
viagem de um jovem Duchamp
ao centro de Laforgue


(encore à cet astre)


Duchamp sabe que delira
nas Impressions d' Afrique...!



na contracapa
teatro
a imagem
imaginas tudo
eu
tu
nós
cada personagem
visgo da folha
o papel é teu
soletrei o tempo
ficastes à léguas de mim
fui até a outra margem
vi que a coxia escondia muito mais
parte da semente era da trapezista
noutra margem: o palhaço!

vês ator, só o que te resta?
nossas praças...


o poeta canta as duas
banhadas de sal e areia
como ânforas e ébrios


Cheiro precoce


bilboquê
de
rosa-botão
na sombra
com
àgua
e
sabão



Íris, bastonetes, pupilas e outras olhadas


A análise clínica, dura, quase intransponível, eurrítmico tácito consentido da greta vocabular científica, não deixa de propalar as cinestesias que a poetisa empresta ao tomo perceptivo da visão.



O que escreves, crônica tácita, quase fábula de um artista soturno.
Num corpo em tessitura com as amarras do existir: num limite os sentidos, sentires; noutra extremidade, repertório de experiências...


Mesmo o poeta "ser per si” que se evade da mais arguta frase ao se estender ou imbricar-se...querer é estranho; a vontade domestica o homem, algo em si de dúvida, razão e altivez. Pronto! Estamos envoltos na névoa quente do passado do que somos.



segunda-feira, 26 de março de 2012

O Diorama de Bluma




Não sei se tela ou filigrana
O seu olhar é lâmina dissecante
Que penetra na carne
Na alma a qualquer instante
Daguerreótipo de único lance, o momento definitivo!
Qualquer pequeno grão de estrela que caía cintilava a madrugada fria
(Um sobrecéu a abrir-se diante de sua janela!)
Colige todo o sentimento ensimesmado
E eu ator desarmado
Sucumbi a seus olhos insistentes; olhos de platéia, centrada em linha!

Ser serenado ou incômodo
Sem se ater a quem mais queira
Vi do outro lado da lente feminina minha face prisioneira
Meu coração acelerado
Dissidente apavorado
De parvo teor acólito
O objeto afeto de sua mira
Incólume projétil desguarnecido e imóvel
Tão desajeitado aos raios da retina

O que chamou sua atenção nessa triste aparência?
Se o que guardo nos bolsos desfiados
São gastos há tempos ruminados
Nos quase trinta anos que esta vida me empresta
Essa existência a espalhar fragmentos de réstia
Viraria partículas no flash alinhado
Em sua prosa fotográfica que documenta o instante inato
Tornando icônica a sombra que reanima
A mesma forma que agora é sua e não mais minha...!


quinta-feira, 22 de março de 2012

Onde Bebo as Palavras


 



Sehen [Bild]

se te vejo, paro, penso
viro lenço fino no teu rosto
e se me vens como imagem
tinta, tela, afã da miragem
um véu de poeira avança
dançam teus olhos sobre os meus



essa vertiginosa tendência a inebriar-se
gosto cálido do encontro enlevado no labirinto
reflete no ser amado uma conjetura ébria...

Eu-aviso e a Ausência

O poetizar e o desejo no emaranhado das peles
Como a doce nostalgia pode consumir a alma...?
Fica em mim a parte que sou de alguém ausente...
Quem é na chegada que possuo apenas na partida?


Doce melancolia...

Desgosto de inquietação
Que olhos são esses?
A terra treme
E de antenome
Se veste o meu
O teu coração
...no Serenar a vida perde o ritmo
Minhas flores cheias transbordam


Da Natureza em Mim

e nos conduza a
uma luz augural
toda criatura


A Cidade

São Paulo assusta quem chega.
Comovidos com as multiplicações das pedras,
a cada degrau,
à sorte,
lançam-se jovens, loucos, adultos, aventureiros,
todos entretidos com a improvável felicidade


Somos homens pálidos demais, categóricos burlescos, amantes das
Vênus dotadas de misteriosos desejos, todos fatos que bloqueiam ou suprimem a possibilidade do vislumbre...
Laura-Mulher apenas na lembrança, nada mais!


*Laura é uma personagem criada por Erllen Nadine, escritora rara, e a acompanha em algumas prosas dotadas de uma pura sensibilidade e belas descrições determinantes na sua escrita.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Dísticos



Para uma flor


"Flor do tempo em espiral
Na queda livre da razão
Música, poesia e emoção
Cachos de uvas no varal
...          - Ampelidáceas."


Dama de mão nua


esses verbos deslizantes
os que desnudam a dona
os que acusam o amante
no desejo tão áspero
incitante dessa escrita


Assum-preto


aquela sem demiurgo
obsoleta flecha
sem alvo
sem cor
Poe
presságio da dor
da pergunta
(antes muda!)
"...não faltava nada"
agora sei com quantos signos se faz uma noite...


Um Van Gogh distraído


de ignorar a dor esparzir na paleta do pintor
onde giram astros de ocre sobre massas de cobaltos
quais os croquis de opalescência tortuosa e turva
um semeador a soçobrar no papel dores de azeviche
por resvalo de distração um pigmento na orelha


Patologia antropocêntrica


Mergulhei no mar da história, história do ser humano. Um fóssil, quase um lamento, mero ancestral das coisas imperdoáveis. Tentei ver um reflexo confortador... me escapou um soluço; prendi o choro.
É...depois de tudo, quase não respiro!


Ao propósito


A relutância que o ser-homem-noturno-cibernético e boêmio trava contra si e contra a sua própria conservação é ínfima e diametralmente oposta a falida concepção, redundante zigoto resultado de qualquer ato: no religioso, comungar na fé o mesmo corpo sagrado; num quarto sobre a cama, dois amantes fecundando ou não gametas.
"Não cuidamos do mundo um segundo sequer", disse Chico.
Dormir no conforto dos seus lençois e rezar também não resolve.


Destilado


O eterno fim no derradeiro devir fortuito principia a palidez dos boêmios. Na cidade velha cansada e habitual, prefiro repudiar o alvoroço, curtir minha dor plácida, torturante. Morrissey ressonante, a fagulha do mistério... Exit Music!

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sábado, 18 de fevereiro de 2012

Quatro Tempos ou Canção Alegórica da Dor



Homens tolos sofrem tanto
Não percebem que seus olhos
Não tem luz, yeah, são sem luz

Sós sem rimas, nem pra quem
Lares tortos destelhados, Baby
Estão nus, yeah, bem nus

Os nomes mudam em tempos
Mas sempre se definem frios
 Assim, Ooh, assim

Lugar não há dentro de ti
Um escuro e dor veste o dia
Só o fim yeah, só o fim...

Lugar não há dentro de ti
Um escuro e dor veste o dia
Não tem luz, yeah, sem luz... oOH!