terça-feira, 26 de março de 2013

Aforismo Algoritmo





 
Como se o poeta,
arqueólogo de si
(um filólogo nietzschiano),
tivesse o dever moral
de desmitificar o seu passado
pelas fímbrias das palavras,
as coisas no mundo,
como se apresentam a nós.


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O Exercício Da Quiromancia Para Um Filósofo




Despir-se de seu passado é um ato de coragem
Caro sábio, vê em sua palma as mesmas linhas?
Num mesmo instante em que criva a paisagem
Sucumbem irônicas palavras em distantes milhas



Sua visão é fosca, limitada advinha de estrada
Para além Romani a palavra não é sua nem minha
Leva no peso da bagagem o pó de dote a nada
Dos quais meus dedos longos amor não tem valia

O rumo que tomo é o mesmo de sua triste trilha
O saber da língua, herdeiro ariano de volta à casa
Não leva a doutrina em novos mares de sua ilha?

É, persigo monstros que nascem feito tatuagens
Meus e seus sem identidade, do anjo abro as asas
E finjo pegar como nômade a próxima carruagem...!

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Morada Alomorfe (ou Dor-objeto)



Meus olhos em semicírculos captam o silêncio da casa
Quando o tempo me empurra para o nunca mais
Deixo que a sorte guie as coisas de que me despeço
No encalço da solidão vestindo as fímbrias da dor
Preso a palavra que arranha minha garganta...
seca
Seca o ar, veste o dia, a luz reveladora em eco
Clangor da sombra a esconder nos objetos a forma
O inesperado assombra todo o sentido tortuoso
Subestima a voz da lucidez ja escassa na despensa
Impregnando e desafiando ao mesmo tempo
Me perco no interior de minha habitação, meu íntimo
A sala, a cozinha, o quarto, o banheiro... os móveis.


Manhã de poesia

Com cheirinho de palavras
Sabor de versos amanteigados
E intimidade lírica.

Poir...

a nódoa da alma
a alma
nódoa do corpo
o corpo pede
a alma ecoa
de dentro
"a mulata ensaboa"
o fio da memória...


Alma'gama

Minimal
o poeta
habita
na palavra.


Vibra o Ar de Etta James

At Last
Enfim, o Elastano de Etta
Calma! Pelo amor azul, anil, lilás
Buterfly, dia decorado
Sorriso e encanto assim lançado
"A thrill that I have never known"
Ela, James sabe...
Do amor que um dia se consumou.


Desprende-se...?

A ela que despede-se do autor
Despe-se as palavras a um qualquer
As ondas se debatem no abater do cais.

Voltam e me ignoram
Desejando o meu infortúnio,meu fim
Carentes, dementes salivas salgadas de mar
Batem em meu rosto os verbos aos ventos.

Sua poesia de rio, de tudo se foi
Deixando nos olhos de brisa a carga escondida do limo
Quão ingrata retorna a sereia de pérolas desperdiçadas
Versos que se perderam no tempo de mim...


Posteridade

As palavras casam em doses certas
até mesmo amor e dor,
se para quê, diz o compositor,
não sei.

Porém,
da gelosia da janela da juventude
podemos ver folhas, versos, vento, alegria,
canção inspirando o coração,
desviando a tensão de tempo em tempo...

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Como Virgínia e Seus Pulmões




coloco pedras em meus bolsos
em meus sapatos
visto-me das sobras alheias
...

morro acidentalmente todos os dias
seguro de que não me alcançarás
nem sequer um rastro de mim absorto
rastejo reverse (graffite) da galeria subterrânea
momento e amônia na luz cega do poste
um campari manchando a tinta
do branco gelo a escorrer gramática
Klimt pintou a vida achando que a morte é certa
e tu não notara que fui humilhado
não percebestes que estava ferido
 
.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Dor, Lágrimas, Solidões e Outros Monstros






Lampejo Noturno

a criação não escolhe hora
são monstros da modernidade
nos desafiam e nos mordem
dentes afiados de insonia
são olhos de frankfurtianos
um Benjamin a rasgar sonhos
de açoitar  Habermas e Adornos
com a navalha da crítica
fita o presente sobre escombros
que o passado nos empresta!

Flores e Melancolia

sem par sobre o chão frio
da saudade a arrebatar tons
no compasso da solidão
dançam as flores para um novo outubro...

Jogo Mítico

percebo daqui,
como na arte
o jogo se instaura
e ganha forma mítica.
...
um Joseph Beuys a explicar Arte para uma lebre morta.

Três Momentos

lê-lo
o vejo
o poema
frente ao espelho
me olha de volta!

Filosofando Quintas

seus suores e suas lágrimas
petrificadas pelo pensamento
e as dádivas de quem dará...!

Ser para Nada

o ser-poeta se entorpece, mesmo
bebe da palavra
do vazio
do silêncio
e o encanto em sua alma desprende-se
ecoa na confusão dos sentidos
onde cheiro é tátil
som é miragem
verbo é tudo
e nada...

Véla-me

pósto-me frente essa ária de veneno
como quem fita o ocultar dos medos
e o revelar-se traumas criptografados


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terça-feira, 18 de setembro de 2012

A Dona dos Olhares


 

A visão inspira a dona que admira o espelho
Batom vermelho, cílios negros; segredo e rímel
Contrastando com a íris de leve tom castanho


Em seu rosto, desenho de curvas para um beijo
Um sorriso fabricado sob medida, ao seu nível
Sensualidade que se ajusta ao desejo e tamanho

Quem arruma toda forma que veste essa moça?

Sai de casa e desafia o Sol a lhe dourar a pele
Como quem nasce da luz e alimenta-se da mesma
Surge à tarde entre os olhares curiosos da esquina

No transeunte, no estudante, na doçura do moleque
Nas garotas que se intrigam com sua roupa e beleza
Nada além de suas bolsas e pulseiras de menina

Onde há ar tão puro que não falta nessa moça?

Quando o vento em seu cabelo desflora as retinas
Como um sonho que confunde o poeta mais doce
Se escreve sobre a ninfa ou navega em seus mares?

Que público elegeria a menina para ser sua rainha?
Capaz de mudar o tempo sem nunca perder a pose
No espelho, no Sol, nos mares, a dona dos olhares


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